Trem das Versões
Ilustração: Vagão-Restaurante
Ato IAto I · Investigação
0 decisões

Pelo olhar de Dora Azevedo

A tinta que não seca

Você confere o relógio de bolso antes da primeira ronda da noite: 22h12, o trem já ganhou velocidade de cruzeiro. No vagão-restaurante o cheiro de café requentado se mistura ao óleo diesel que sobe pelas frestas. É quando Beto, o ajudante de cozinha, te entrega o diário de bordo com as mãos trêmulas, dizendo que encontrou aberto na sua cabine, mesmo trancada. Você abre a página de hoje e encontra três parágrafos sobrepostos, todos na sua letra, todos sobre a mesma curva, a mesma hora, a mesma noite de 1987. A tinta ainda está molhada, brilhando sob a luz amarela, como se tivesse sido escrita minutos atrás — por você, embora você não lembre de ter escrito nada.

“Beto: Dora, isso não é da sua letra de hoje. Isso é de antes de eu nascer.”